Da formação à sala de aula: posters didáticos que prolongam a vida da microbiologia na escola
- Lara Amorim

- há 16 minutos
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Há formações que acabam quando se fecha a sala… e há formações que ficam connosco, a fazer caminho, muito para lá desse momento.
O curso “Apoio ao ensino-aprendizagem em ciências biológicas: formação prática sobre as interações hospedeiro–microrganismos” foi um exemplo claro desta segunda possibilidade: uma experiência formativa com impacto para além do calendário, por se traduzir em recursos, estratégias e intencionalidades pedagógicas com continuidade no contexto escolar.
O texto já publicado no EduBiota — “Quando microrganismos e professores se encontram: uma formação que trouxe vida nova ao ensino da Biologia” — documenta bem a essência deste percurso: uma abordagem de aprendizagem ativa, sustentada em evidência científica, com ênfase na operacionalização de práticas laboratoriais e na construção de pontes explícitas entre conteúdos de microbiologia e a realidade curricular. Esse enquadramento ganha agora uma dimensão adicional com a divulgação dos posters produzidos pelos formandos.
Um trabalho facultativo, um compromisso coletivo
A produção de posters foi proposta como tarefa facultativa. Ainda assim, todos os formandos participaram de forma empenhada no processo de conceção e elaboração. Este dado é, por si só, pedagogicamente significativo: quando a formação cria condições para que os participantes reconheçam utilidade, pertinência e transferibilidade no que produzem, a adesão deixa de depender do caráter obrigatório e passa a decorrer do sentido atribuído ao trabalho.
Importa sublinhar que estes posters não funcionam apenas como registo do percurso. São, sobretudo, recursos didáticos com elevada transferibilidade, concebidos para serem integrados em práticas de ensino nas escolas, seja como organizadores visuais do conhecimento, seja como suportes para problematização e investigação em sala de aula e laboratório.
Posters como dispositivos pedagógicos
Em termos didáticos, um poster bem desenhado pode desempenhar múltiplas funções: introdução de conceitos, estruturação de relações, sistematização, comunicação científica escolar e suporte a tarefas de investigação.
Neste conjunto, destaca-se uma preocupação transversal em articular:
conceitos nucleares (microbiota, disbiose, simbiose, fermentação, diversidade microbiana);
contextos próximos dos alunos (alimentação, saúde, produtos do quotidiano, património cultural e alimentar);
possibilidades concretas de exploração pedagógica (tarefas, perguntas orientadoras, atividades experimentais).
A diversidade temática é, aliás, uma mais-valia: permite abordar as interações hospedeiro–microrganismos não como um tópico “à margem”, mas como um eixo estruturante que atravessa saúde, ecologia, biotecnologia, cidadania e cultura científica.
Percursos temáticos com potencial de integração curricular

1) Alimentação e microbiota: compreender para decidir melhor
O poster “O teu prato de hoje é a microbiota de amanhã” apresenta uma linha discursiva clara e pedagogicamente fértil, ao articular a microbiota como dimensão funcional do organismo, a noção de disbiose e a relação entre padrões alimentares e equilíbrio microbiano.
É particularmente adequado para trabalhar literacia em saúde e para apoiar discussões informadas sobre hábitos alimentares, ultrapassando abordagens moralizantes e promovendo análise crítica baseada em critérios e evidência.
Possibilidades de exploração:
Análise crítica de afirmações (conceções alternativas vs. conhecimento validado): seleção de enunciados frequentes (p.ex., sobre “alimentos milagrosos”, probióticos, ultraprocessados) e avaliação da sua plausibilidade, com foco em fontes, argumentos e limitações.
Construção de critérios para escolhas alimentares promotoras de diversidade microbiana: definição de indicadores (fibras, fermentados, variedade vegetal, etc.) e reflexão sobre viabilidade, contexto socioeconómico e hábitos culturais.

2) O holobionte e a ecologia do corpo: uma visão sistémica
No poster “Nós e os nossos ‘minions’”, a opção por uma linguagem motivadora é acompanhada por conceitos que suportam uma leitura mais aprofundada: holobionte, funções da microbiota (barreira, imunomodulação, síntese de compostos) e fatores que perturbam o equilíbrio microbiano.
Este tipo de recurso facilita uma abordagem sistémica, útil para consolidar a ideia de que a saúde resulta de interações e equilíbrios dinâmicos, e não apenas da presença/ausência de agentes patogénicos.
Possibilidades de exploração:
Mapas conceptuais para estruturar relações: holobionte → microbiota → funções → fatores de perturbação → consequências.
Discussão orientada sobre antibióticos e responsabilidade: quando são indispensáveis, quando devem ser evitados, e que impactos podem ter na microbiota e na resistência antimicrobiana (adequando profundidade ao nível de ensino).

3) Investigação em ambiente escolar: diversidade microbiana e massas-mãe
O poster “Análise da diversidade microbiológica de massas-mãe de pão em ambiente escolar” aproxima a microbiologia de uma lógica de inquérito científico escolar: observação, comparação entre amostras, formulação de hipóteses e discussão de variáveis. Para além do valor experimental, integra um contexto cultural e territorial (pão, fermentação tradicional), o que favorece a interdisciplinaridade e a contextualização do conhecimento.
Possibilidades de exploração:
Projeto de investigação com perguntas orientadoras: “Que fatores podem explicar diferenças entre massas-mãe?”; “Como controlar variáveis?”; “Que indicadores podemos observar com os recursos disponíveis?”.
Trabalho metodológico sobre limitações e inferências: o que é possível concluir a partir de observações morfológicas e cultivo; o que fica em aberto sem técnicas moleculares; como comunicar resultados com rigor.

4) Fermentação e património: do mosto ao vinho do Porto
“Do Mosto ao Porto: Enologia Experimental para Estudantes” articula processos microbiológicos e bioquímicos com um contexto real e culturalmente significativo. A fermentação surge aqui como fenómeno científico e, simultaneamente, como processo tecnológico e histórico. É um recurso com potencial para explorar conceitos (metabolismo, produção de CO₂, consumo de açúcares, papel das leveduras) e para promover cultura científica através de situações autênticas.
Possibilidades de exploração:
Sequências didáticas centradas em evidências observáveis: produção de gás, variações de massa, registos e interpretação de dados.
Articulação com cidadania e literacia: discussão informada e adequada à faixa etária sobre álcool, saúde e consumo responsável, distinguindo conhecimento científico de mensagens simplificadas.
EduBiota no seu melhor: continuidade, partilha e impacto
O que estes posters evidenciam é uma ideia central: uma formação de professores ganha densidade quando se traduz em artefactos pedagógicos transferíveis, que prolongam a aprendizagem e a tornam partilhável. Ao serem produzidos por docentes, com consciência das condições reais das escolas, estes materiais tendem a ser mais realistas, mais adaptáveis e mais alinhados com necessidades concretas.
Mais do que “produtos finais”, estes posters são dispositivos de continuidade: organizam conhecimento, mobilizam problematização, apoiam investigação e comunicam ciência com intenção didática. São, por isso, um excelente exemplo de como a formação pode transformar-se em capacidade instalada — e de como o ensino da Biologia pode ganhar, efetivamente, vida nova quando microrganismos e professores se encontram com propósito.




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