EduBiota em Belgrado: microbiomas, educação e diálogo entre ciência e sociedade
- Lara Amorim

- há 1 dia
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Entre os dias 3 e 5 de junho de 2026, participei na 3rd Annual Conference on “Plant Microbiomes”, integrada na MiCropBiomes COST Action, que decorreu em Belgrado, Sérvia. A conferência reuniu investigadores/as de vários países europeus em torno de um tema cada vez mais relevante: o papel dos microbiomas das plantas na sustentabilidade agrícola, na saúde dos solos, na resiliência dos ecossistemas e na resposta a desafios ambientais contemporâneos.
Ao longo dos três dias, tive a oportunidade de conhecer mais de perto os trabalhos desenvolvidos por colegas desta ação COST, desde estudos sobre interações moleculares entre plantas e microrganismos, comunidades microbianas associadas a culturas agrícolas, doenças de plantas e biocontrolo, até abordagens sobre inoculantes microbianos, comunidades sintéticas e adaptação a diferentes condições ambientais. Esta diversidade de perspetivas reforçou uma ideia central para o EduBiota: os microbiomas não são apenas um tema de investigação avançada, mas também uma oportunidade poderosa para aproximar a ciência das escolas, dos professores, dos alunos e da sociedade.
A participação nesta conferência foi particularmente significativa pelas oportunidades que me foram dadas para representar o Working Group 5: Communication, and engagement with society, contribuindo para refletir sobre como o conhecimento produzido no âmbito da investigação em microbiomas pode ser comunicado, discutido e transformado em recursos educativos com relevância social.
Um dos momentos mais marcantes foi o convite da comissão organizadora para dinamizar uma sessão plenária dedicada à importância de levar a literacia sobre microbiomas às escolas. A sessão procurou responder a uma questão essencial: por que razão deve a ciência dos microbiomas entrar nos contextos educativos?
A resposta passa pelo facto de os microbiomas estarem hoje ligados a dimensões fundamentais da vida contemporânea: agricultura sustentável, saúde dos solos, sistemas alimentares, fermentação, saúde humana, animal e vegetal, clima, biodiversidade, biotecnologia e compreensão pública da ciência. Os alunos de hoje viverão num mundo onde muitas decisões — ambientais, alimentares, tecnológicas e de saúde — serão cada vez mais influenciadas pelo conhecimento sobre microrganismos e microbiomas.
Durante a sessão, foi também promovida uma discussão com professores sérvios convidados e com o público presente sobre formas de integrar este tema nos currículos escolares. Discutimos onde os microbiomas podem encontrar espaço na educação científica, que competências este tema permite desenvolver em contexto de sala de aula e que tipos de recursos didáticos, apoios aos professores e adaptações práticas podem tornar esta integração mais realista nas escolas.
A discussão mostrou que a literacia em microbiomas vai muito além de saber que os microrganismos existem. Implica compreender os microrganismos como agentes de saúde e doença, crescimento das plantas, fertilidade dos solos, produção de alimentos, funcionamento dos ecossistemas, sustentabilidade e inovação biotecnológica. Implica também ajudar os alunos a ultrapassar uma visão exclusivamente negativa dos microrganismos, frequentemente associados apenas a contaminação, higiene, risco ou doença.
Neste sentido, o desafio educativo não é simplificar excessivamente a ciência, mas torná-la visível, conectada e discutível. A escola pode ser um espaço privilegiado para transformar conhecimento especializado em compreensão pública, pensamento crítico e participação informada.
A sessão reforçou ainda a importância de conhecer as realidades escolares antes de desenvolver recursos educativos. Que ideias têm alunos e professores sobre microrganismos? Que conceções alternativas ou incertezas são mais relevantes? Onde se encaixam os microbiomas nos currículos? Que obstáculos práticos enfrentam as escolas? Que materiais, protocolos, estudos de caso ou guias para professores seriam realmente úteis?
Estas perguntas são centrais para o trabalho que o EduBiota tem vindo a desenvolver. A mediação entre ciência e educação exige escuta, adaptação e colaboração. Não basta transferir conhecimento científico para a escola; é necessário compreender os seus contextos, constrangimentos, possibilidades e necessidades reais.
A experiência em Belgrado foi também marcada pela própria cidade. Belgrado impressiona pela sua resiliência histórica, visível numa paisagem arquitetónica diversa, onde se cruzam marcas de antigos impérios, influências romanas e otomanas, memórias da era jugoslava, arte religiosa ortodoxa e uma vida cultural intensa. Nas ruas pedonais, sempre cheias de movimento, música, arte e encontros, a cidade mostrou-se como um lugar de contrastes, resistência e vitalidade.
Entre sessões científicas, reuniões de grupos de trabalho, conversas informais e momentos culturais, Belgrado ofereceu um cenário particularmente inspirador para pensar a ciência como prática coletiva, situada e socialmente responsável.
Para o EduBiota, esta participação reforça a importância de continuar a trabalhar na interseção entre microbiologia, educação científica e comunicação com a sociedade. A ciência dos microbiomas tem muito a oferecer às escolas: permite desenvolver pensamento sistémico, literacia científica, compreensão da sustentabilidade, análise crítica de riscos e benefícios, e uma visão mais equilibrada da relação entre microrganismos, plantas, ambiente e sociedade.
Termino com um agradecimento especial à comissão organizadora da conferência pelo convite, pela confiança e pela oportunidade de trazer a educação e a comunicação de ciência para o centro da discussão sobre microbiomas. Agradeço também a todos/as os/as colegas da MiCropBiomes COST Action, em particular do WG5, pelos diálogos, aprendizagens e possibilidades de colaboração futura.
O impacto social da ciência dos microbiomas depende não apenas da produção de conhecimento, mas também da capacidade de tornar esse conhecimento compreensível, discutível e útil para diferentes públicos. Foi precisamente essa convicção que levei comigo para Belgrado — e que continua a orientar o trabalho do EduBiota.
Mais informação:
3rd Annual Conference of the MiCropBiomes COST Action (https://micropbiomes.eu/)
Belgrado, Sérvia | 3–5 junho 2026
Sessão de Educação: Microbiome literacy, perceptions and educational needs
Working Group 5: Communication, and engagement with society






















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